A crise financeira na Agrogalaxy, que entrou em recuperação judicial, põe uma balde de água gelada em uma classe de ativos que recém estreou na B3: os Fiagros. Mas será que seria possível termos previsto esses problemas e evitado essas perdas? E se fôssemos os consultores da Agrogalaxy, o que poderíamos ter feito para evitar uma situação tão delicada como essa? Leia este artigo para obter a visão tanto de um credor quanto a de um sócio controlador.
Vamos começar nossa investigação, voltando no tempo, mais precisamente às vésperas da última emissão de títulos de dívida.

Descobrimos, no site da Anbima, que a última emissão foi no dia 23/09/2022. Uma emissão de meio milhão de reais com vencimento em 2027, com uma remuneração de DI + 4,25%.
Se calcularmos a taxa que a empresa deveria remunerar seus credores, supondo a SELIC de hoje a 10,75% a.a., temos:
(1 + Taxa Final) = (1 + DI) × (1 + Adicional)
(1 + Taxa Final) = 1,1075 × 1,0425 = 1,15318
Taxa Final = 15,38%
Esse é um dos primeiros pontos que chama a atenção, uma remuneração que excede o padrão das emissões, que fica entre 98% a 101% do CDI.
Documentos disponíveis na época de novas emissões de CRA da Agrogalaxy?
Sempre é bom ler nos relatórios contábeis as análises dos auditores independentes, para obtermos um senso de que os dados apresentados representem com acuracidade a real situação da empresa. Fazendo essa pequena pesquisa, encontrei que em 15 de agosto de 2022 tínhamos um relatório emitido pela empresa de auditoria PricewaterhouseCoopers, auditores independentes, informando o seguinte:

Todas os documentos apresentados neste artigo são de domínio público e estão no site de Ri da empresa.
"O alcance de uma revisão é significativamente menor do que o de uma auditoria conduzida de acordo com as normas de auditoria e, consequentemente, não nos permitiu obter segurança de que tomamos conhecimento de todos os assuntos significativos que poderiam ser identificados em uma auditoria. Portanto, não expressamos uma opinião de auditoria."

Outro ponto de atenção: vemos que a empresa apresentava um resultado negativo em seu DRE mais recente, às vésperas da emissão de novas dívidas.
Investigando o Balanço Patrimonial da Agrogalaxy

Observamos que o Balanço Patrimonial apresenta muitas linhas elencadas como "Outros", e não há uma clara distinção da real dívida de curto e longo prazo assumida com credores.
Encontrei informações da composição da dívida neste relatório auxiliar.

Aqui vemos que a dívida líquida, aquela que desconta o caixa, saltou de R$786,9 milhões para R$1.219,1 milhões em um ano.
Risco de Liquidez

Outro ponto-chave desta análise foi revelado ao estudar o perfil da dívida em relação aos prazos de vencimento. Como vemos, em 30/06/2022, os empréstimos e financiamentos que venceriam em um prazo de um ano somavam 1,53 bilhões, o que deixaria a empresa sem tempo hábil para fazer o reperfilamento da dívida, que ocorre quando trocamos dívidas curtas e caras por longas e mais baratas.
Em resumo, já naquela emissão de novos CRAs era possível identificar sinais de problemas relacionados à liquidez e à capacidade de honrar as dívidas de curto prazo. No caso da Agrogalaxy, uma programação financeira adequada poderia ter proporcionado tempo suficiente para realizar a troca de dívidas de curto prazo por dívidas de longo prazo. Para os credores, a melhor prática é sempre realizar uma análise dos documentos contábeis, formando uma opinião própria independente de bancos emissores.




